Associação Paranaense de Engenheiros Florestais apresenta anteprojeto de lei que prevê avaliações técnicas periódicas em espaços públicos, em cooperação com os municípios.
A Associação Paranaense de Engenheiros Florestais (APEF) apresenta nesta semana, para discussão com o poder público e a sociedade, um anteprojeto de lei que institui a Política Estadual de Prevenção e Gestão de Riscos da Arborização Urbana em Áreas de Uso Público, o Programa Paraná Árvores Seguras. A proposta, elaborada pelo vice-presidente da entidade, o engenheiro florestal Marco Aurélio Busch Ziliotto, prevê que o Estado estabeleça diretrizes técnicas e ofereça apoio às prefeituras para a avaliação periódica de árvores em locais de grande circulação, com o objetivo de reduzir os acidentes provocados por quedas de árvores e galhos, cada vez mais frequentes nas cidades paranaenses.
Somente em 2026, ocorrências desse tipo foram registradas em diferentes regiões do estado. Em Curitiba, a Praça Osório concentrou episódios ao longo do ano, entre eles o acidente de junho que deixou uma jovem com lesão medular e a queda de um galho que atingiu um homem no último dia 23. A sequência de ocorrências resultou na interdição temporária do espaço para manutenção. Em Guarapuava, uma árvore antiga caiu na Praça 9 de Dezembro, sem deixar feridos. Em Londrina, uma árvore tombou na região central no dia 9 de outubro, após alerta sobre suas condições estruturais.
Os temporais do fim de setembro também provocaram estragos em outras cidades. Em Maringá, uma árvore atingiu um veículo na Avenida Juscelino Kubitschek e deixou a motorista ferida. Em Cascavel, outra árvore atingiu a janela de uma residência no bairro Floresta. Em junho, em Ponta Grossa, uma queda bloqueou uma rua do Jardim Carvalho e atingiu uma caminhonete. Na Região Metropolitana de Curitiba, uma araucária caiu sobre uma casa e um carro em Colombo, com uma pessoa ferida.
As circunstâncias dos casos são diversas e incluem eventos meteorológicos severos e exemplares antigos com problemas estruturais. Para a APEF, esses episódios reforçam a necessidade de avaliações técnicas sistemáticas, capazes de identificar situações de risco, orientar medidas preventivas e reduzir a probabilidade de acidentes, com o reconhecimento de que nem todos os eventos são previsíveis.
"O que propomos é uma ferramenta de apoio aos municípios. Muitas prefeituras já fazem um trabalho sério de manejo, mas enfrentam limitações de equipe, de orçamento e de padronização técnica. O Estado pode ajudar a estruturar esse trabalho em todo o Paraná", afirma Ziliotto.
Cooperação com os municípios
A proposta da APEF considera a gestão da arborização urbana como responsabilidade compartilhada. O Estado ficaria encarregado de definir diretrizes técnicas e oferecer cooperação técnica e, quando cabível, financeira às prefeituras, com respeito à autonomia administrativa de cada município.
A implantação dessa nova política seria progressiva, de acordo com as prioridades técnicas, a disponibilidade orçamentária e os acordos firmados. Ela também prevê convênios com universidades, instituições de pesquisa, conselhos profissionais e entidades técnicas, o que amplia a capacidade de atendimento, sobretudo nas cidades com estruturas menores.
Concluída a etapa de discussão, a intenção da entidade é encaminhar o texto à Prefeitura de Curitiba, ao Governo do Estado e à Assembleia Legislativa do Paraná.
A implantação da nova política
A proposta estabelece que a definição de prioridades siga critérios técnicos objetivos, como a probabilidade de falha da árvore ou de suas partes, a exposição de pessoas e bens e as consequências potenciais de uma eventual queda. A abordagem evita que exemplares sejam classificados como perigosos apenas por serem antigos ou de grande porte. Nesse contexto, os espaços de maior circulação de pessoas, como praças e parques, escolas, creches, universidades e hospitais públicos, terminais de transporte coletivo, calçadões e vias comerciais, além de locais de feiras e eventos públicos, devem receber atenção prioritária.
Os profissionais deverão seguir protocolos técnicos reconhecidos e analisar as condições estruturais e fitossanitárias de cada árvore, defeitos em raízes, tronco, copa e galhos, a espécie e o porte, a frequência de ocupação do local e o histórico de ocorrências. O texto prevê ainda reavaliações extraordinárias após temporais e outros eventos climáticos severos, quando houver indicação técnica.
O anteprojeto estabelece que a identificação de risco não implica, por si só, a recomendação de corte da árvore. A prioridade são medidas proporcionais, como monitoramento, manejo da copa, intervenções no entorno e isolamento temporário. A remoção fica restrita aos casos em que for indispensável e legalmente autorizada.
"As árvores garantem sombra, conforto térmico, qualidade do ar e biodiversidade. Ninguém quer cidades menos arborizadas. Segurança das pessoas e preservação das árvores não são objetivos opostos, são responsabilidades que precisam caminhar juntas", destaca o engenheiro florestal.
Laudo e responsabilidade técnica
A proposta distingue níveis de análise conforme o grau de risco e a complexidade de cada situação. Inspeções visuais de triagem permitem um diagnóstico inicial em larga escala, enquanto avaliações técnicas detalhadas e laudos específicos ficam reservados aos casos que exigem maior aprofundamento. A gradação torna a política viável também para municípios de menor porte. Os laudos deverão ser assinados por profissional legalmente habilitado, com Anotação de Responsabilidade Técnica (ART) ou documento equivalente exigido pelo respectivo conselho, e conter a identificação e a localização da árvore, a metodologia, a classificação do risco e as recomendações técnicas.
Engenheiros florestais com atribuições compatíveis reúnem conhecimentos de dendrologia, anatomia da madeira, fitossanidade, biomecânica e manejo de árvores e podem emitir esses laudos com responsabilidade técnica perante o Sistema CONFEA/CREA. A proposta também contempla outros profissionais legalmente habilitados, nos limites de suas atribuições.
A proposta também prevê a criação de um sistema estadual de informações para registrar avaliações, ocorrências e medidas de manejo, permitindo acompanhar indicadores e direcionar recursos às áreas de maior risco. A iniciativa complementa os avanços da Lei Federal nº 15.299/2025, que estabelece a exigência de laudo técnico de profissional ou empresa habilitada para fundamentar pedidos de poda ou corte de árvores em situações de risco de acidente. A legislação também prevê prazo de 45 dias para manifestação fundamentada do órgão ambiental, admitindo autorização tácita em caso de ausência de resposta, observadas as condições legais. Enquanto a lei federal disciplina situações específicas de intervenção, a proposta da APEF busca avançar na prevenção, por meio de avaliações periódicas, planejamento e gestão técnica dos riscos da arborização urbana.
Debate aberto
O anteprojeto será discutido com associados da APEF, entidades profissionais, universidades, órgãos ambientais e representantes do poder público estadual e municipal, com o objetivo de construir uma proposta tecnicamente fundamentada e juridicamente adequada.
"Precisamos avançar de uma cultura de atuação predominantemente emergencial, após a queda de árvores e galhos, para uma política pública de prevenção baseada em critérios técnicos, planejamento e monitoramento. O Paraná tem profissionais qualificados e instituições capazes de contribuir para essa transformação", afirma o vice-presidente da APEF.
"Não se trata de apontar culpados a cada acidente, mas de criar condições para que eles não aconteçam. A APEF coloca o conhecimento da engenharia florestal à disposição dos municípios para que o Paraná tenha cidades mais seguras e mais arborizadas", conclui Ziliotto.
Interessados podem enviar suas colaborações para a entidade pelo e-mail: secretaria@apef-pr.org.br
Somos uma instituição voltada a atender os desafios impostos para unir e defender a classe florestal no estado do Paraná, bem como oferecendo formas de atualização e melhoria dos profissionais.